Diferenças na formação de atletas do futebol na Espanha e no Brasil

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Diferenças na formação de atletas do futebol na Espanha e no Brasil

“Diferenças na formação de atletas do futebol na Espanha e no Brasil”

 

Autor: Óscar Sáenz | Graduado em Ciência dela Actividad Físicay del Deporte pela Universidad de León – Espanha

Nível I Treinador Real Federación Española de Fútbol. Nivel II (Atualmente em curso em Madrid)

Coordenador Técnico (sub 15-20) e treinador do Infantil do Avaí Futebol Clube no ano de 2012-13.

Óscar Sáenz em Convocação Atleta do Avaí

 

Colaboração: Alessandro Júnior Mendes Fidelis | Doutor em Ciência dela Actividad Físicay del Deporte pela Universidad de León – Espanha Especialista em Futebol paela Universidade Federal de Viçosa – MG Coordenador Técnico do Clube Desportivo Minas

Alessandro Júnior Mendes Fidelis

 

Primeiramente quero agradecer aos profissionais da empresa Olheiro Digital, que conheci na Palhoça CUP em Santa Catarina realizando um trabalho diferenciado e de 1° Nível, no fim de Dezembro de 2012, quando ainda era Coordenador Técnico das categorias de base e posteriormente, treinador da categoria Sub 15 do Avaí Futebol Clube. Meu nome é Oscar Sáenz, sou da Espanha, onde fui atleta de futebol até os 18 anos (ultimo ano de base na Espanha) quando acumulava a função de treinador da categoria Sub 15 anos no Clube Deportivo Peña, da cidade de León.

No C.D.Peña trabalhei durante dois anos, até que recebi o convite do Puente Castro Fútbol Club, referencia na formação de atletas na cidade. Tive a oportunidade de fazer um breve estágio no F.C Barcelona “B” da Segunda divisão da Espanha durante este período.

Fui então, convidado a concluir no Brasil meus estudos de Actividad Física y Deportiva (Bachareladoem Educação Física) quando tive a oportunidade de trabalhar no Avaí e disputar as competições e ser campeão estadual Sub 15 e Sub 17, 3º colocado Sub 20 e 5º colocado no Brasileiro Sub 20 em Porto Alegre. Como treinador Sub 15 fui campeão de Saudades e Teutônia, antes de voltar para Espanha, onde vivo atualmente.

Este artigo é um trabalho feito com a ajuda de meu amigo e grande profissional Alessandro Júnior Fidelis, brasileiro, atualmente Coordenador Técnico do Clube Desportivo Minas, da cidade de Contagem-MG. O clube é o atual Campeão da Brazil Football Cup Sub 17, torneio que contou com a presença de Fluminense e Cruzeiro (clube com quem realizou a final da competição), dentre outros, e vice-campeão mineiro da categoria Sub 17, eliminando do torneio, equipes tradicionais do estado, como o América Mineiro, Villa Nova e Cruzeiro, clube no qual o mesmo foi estagiário no ano 2003 e inicio de 2004 ano. Alessandro trabalhou ainda na Escola de Futebol do Comercial Esporte Clube, onde teve como atleta no ano de2004, aatual revelação do futebol brasileiro, o atleticano Bernard, e na Espanha, trabalhou na categoria Alevín B (Sub 11 no Brasil) do Club Deportivo Ejido.

Através das conversas com Alessandro, me chamou a atenção a modificação do processo de formação do jogador brasileiro através dos anos, devido a mudança do comportamento da qualidade de vida em geral do brasileiro.

Até o fim da década de 90, o Brasil possuía nos grandes centros urbanos, muitas áreas livres, e muitas ruas tranquilas, onde as crianças praticavam futebol e diversas outras brincadeiras tranquilamente.  Com muitos espaços, as crianças criavam brincadeiras com bola (1 x 1,  2 x 1, 2 x 2, 3 x 3, golzinho, tira-tira, paulistinha, paulistinha com beque, meio-fio, cruzamentos utilizando as garagens e portões das casas como gols, etc.) que lhes davam uma gama ilimitada de estímulos motores para o desenvolvimento das habilidades técnicas e das tomadas de decisão no futebol. Além disto, devido ao baixo poder aquisitivo das famílias brasileiras até então, raramente eram utilizadas bolas de verdade, sendo as mesmas adaptadas com meias, jornais velhos, etc, exigindo das crianças um imenso poder de adaptação. Isto fazia com que surgissem no país, de forma natural e espontânea, centenas de garotos com alta capacidade técnica, que chegando aos clubes de formação, necessitavam apenas de refinamento quanto a este requisito, além do aprendizado das capacidades táticas. Aliado a este fator, o fato de o esporte prodominante nas aulas de Educação Física escolar no Brasil até então ser o futsal, onde estas mesmas crianças continuavam a receber estímulos em pequeño espaço de jogo.

Com o aumento da violencia urbana e o desaparecimento dos espaços vazios, deu-se surgimento as “Escolinhas de Futebol”. Uma boa alternativa, caso o trabalho fosse o de adaptar os estímulos que as crianças recebiam de forma natural aos campos sintéticos e quadras. No entanto, o que se viu acontecer já naquela época e se vê de forma corriqueira persistir na grande maioria das mesmas até hoje foram:

  • A exclusão de crianças de baixo poder aquisitivo, que não podem pagar pelas aulas. Fato com que ajudou bastante que os grandes centros de formação de jogadores de futebol fossem as periferias, ainda não tomadas pelo “boom” da industrialização e, resistentes quanto a espaços, mesmo que pequenos, para a prática do futebol;
  • Os coletivos “intermináveis” de 11 x 11 em campo inteiro (110 x 70) jogados em 1 hora, 1 hora e meia, por crianças a partir dos 7 anos de idade, reproduzindo a imagem que as crianças levam de seus ídolos nos jogos, com o intuito único e exclusivo de agradar aos “clientes” ou alunos, e segurarem a mensalidade paga pelos mesmos;
  • O fato de que os proprietários de escolas formais terem descoberto que aproveitar-se da diminuição de espaços vazios nas cidades para criar escolinhas de futsal dentro das mesmas era um grande negócio, bastando para isto que as aulas do esporte fossem bruscamente diminuídas da classe escolar, forçando aos alunos o pagamento para que, fora do horário de aula formal, disfrutassem das mesmas.
  • Quando se trabalha técnica ou taticamente nestas escolinhas, o que se vê na imensa maioria das vezes, nada mais é do que a repetição dos treinamentos feitos com adultos, criando atletas automatizados, que repetem gestos técnicos e táticos impostos pelos professores, sem a possibilidade de tomarem a decisão e sem compreenderem o porque estão fazendo. Não desenvolvem a criatividade dos atletas.

Esta falta de estímulos fez com que os atletas perdessem muito a qualidade motora, e os clubes por sua vez, não se adaptaram a este processo, antecipando a entrada dos poucos talentosos que sobraram em suas equipes. Em resumo, não assumiram o trabalho antes executado de forma espontânea nas ruas, deixando os mesmos nas mãos das escolinhas que por sua vez, visando apenas intereses comerciais, não as fazia.

Desta forma, os atletas que antes chegavam aos clubes com boa gama motora, começaram a ter de ser trabalhados praticamente do zero pelos clubes, o que causa ao mesmo, um retrocesso no processo de formação no que diz respeito a conteúdos que devem ser trabalhados por categoria. Ex:

  • Antes, o atleta chegava ao clube no Sub 15, com gama motora para tal, devido aos estímulos que recebia de forma natural. Sendo assim, recebia já, estímulos de formação apropriados a categoria Sub 15.
  • Hoje o atleta chega ao Sub 15 com poucos recursos técnico-táticos, obrigando ao retrocesso do processo de formação. Tem de ser trabalhado com estímulos que deveria ter recebido aos 12 ou 13 anos. Quando sobe ao Sub 17, recebe então, estímulos de Sub 15. E assim até chegar ao profissional.

Além disto, soma-se o problema financeiro dos clubes considerados menores, que muitas vezes impede com que o atleta cumpra seu ciclo de formação aos 20 anos. A necessidade de se comercializar o jovem atleta ou, o baixo nível técnico da equipe de atletas profissionais faz com que, muitas vezes, o atleta seja requisitado aos, 16, 17 anos para o mesmo. Ou seja: deixa de receber 3 anos de processo de formação ou “construção física, técnica, tática e psicológica.

Nada contra aos atletas realmente talentosos, que tenham adquirido de forma precoce todas as qualidades para integrar um grupo de profissionais. Que com um grupo coeso, bem estruturado e com atletas de boa qualidade, o treinador da equipe profissional busque e encontre na base, de forma seletiva e criteriosa, atletas já em condições de participar e contribuir com este grupo. Mas no Brasil, em 90% dos casos, não é isto que acontece. Geralmente, quando sobe um atleta da base para a categoria principal, o mesmo ocorreu pela falta de atletas de qualidade técnica na mesma posição, seja por má montagem de elenco, negociação ou contusão de atleta. Ou sobe na expectativa de algum dirigente de que o clube consiga negociar este atleta de forma rápida.

Claro que existem no Brasil, clubes que invistam em categorias menores. Pelo menos 80% dos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, mantem em sua base, equipes sub 13 ou Sub 14. Mas, de trabalho realmente voltado para a formação, com profissionais qualificados para trabalhar com estas idades e investimentos de competições e infra-estrutura de treinamentos para estas categorias, são estes, um ou outro clube empresa (posso citar o Fragata do Rio Grande do Sul, Ubaense e Proesp de Minas Gerais, Audax, …), e só.. E é muito pouco. Muito pouco para o tamanho de um país como o Brasil, com a quantidade de clubes que têm. A imensa maioria dos clubes de Série B, C e D do país, além de tantos outros que disputam os campeonatos regionais, quando tem, tratam estas categorias menores como escolinhas, com as atividades sendo realizadas fora do espaço físico e do contexto do clube, com o “aluno” mantendo a mesma através de mensalidades e sem profissionais qualificados para trabalhar da forma como a categoria necessita, com os próprios “professores”, muitas vezes com pouca ou nenhuma formação, tendo toda a autonomia quanto a metodologia a ser aplicada, mesmo que o clube não faça a mínima ideia de qual seja. E mais: a grande maioria não possui projeto ou trabalho nem das categorias básicas de rendimento (Sub 15, Sub 17 e Sub 20). Encaram como gasto, ao invés de investimento.

Outro grave problema encontrado é a falta de projetos de orientação metodológica dos clubes brasileiros na formação. Na grande maioria das vezes, quem dita a forma de trabalho é o atual treinador da categoria, que as vezes trabalha com metodologia ou modelo de jogo totalmente diferente do treinador das categorias demais. Não há portanto, uma sequência lógica de ensino-aprendizagem, ou uma coesão no que diz respeito ao modelo de jogo do clube.

 

O TRABALHO DE BASE NA ESPANHA

 

O primeiro diferencial do trabalho de formação na Espanha em relação ao do Brasil, é a formação dos treinadores. A grande maioria é graduada em Educação Física (na Espanha o curso tem duração de 5 anos) e o Máster profissional em futebol (que no Brasil seria equivalente a Especialização). Além disto, tanto graduados quanto ex jogadores, que neste caso devem obrigatoriamente ter tido passagens pela seleção principal de seu país em jogos oficiais, tem de obrigatóriamente realizar os cursos da UEFA, no caso, ministrados pela Real Federación Española de Fútbol (RFEF).

Na Europa, existem 3 níveis de treiandor. O primerio nível corresponde a 455 horas letivas letivas, sendo 305 teórico/práticas e 150 , de práticas nos clubes. Este nível só permite treinar até crianças e adolescentes de 18 anos, ultimo ano de formação na Espanha. O segundo nível consta de 565 horas letivas, sendo 365 teórico/práticas e 200 de práticas nos clubes. Já no terceiro e ultimo nível, são 875 horas; 675 teórico/práticas e 200 de formação.

Os clubes possuem um coordenador de metodología, ou, coordenador técnico que semanalmente ou a cada 15 dias, realiza uma reunião com todo o corpo técnico para que sejam discutidos todos os aspectos relacionádos a metodologia de formação referente a filosofia do clube, categoría a categoría, desde a mais nova. Estas reuniões iniciam-se desde antes do início da temporada.

Os clubes de formação na Espanha se dividem em duas categorias:

  • Clubes profissionais que possuem categorias de base, na Espanha, chamadas de “Cantera” (Ex: Barcelona, Real Madrid, …).
  • Clubes exclusivamente de formação, que trabalham com o intuito de abastecer os clubes de categoría profissional.

Assim como ocorre no Brasil, devida a diferença econômica entre as duas categorias, os clubes profissionais possuem maior condição de abastecer sua cantera com melhores jogadores, uma vez que oferecem melhores instalações esportivas, alojamento e ajuda de custo. Os grandes clubes espanhois, começam a alojar atletas a partir dos 13 anos de idade, sempre com o consentimento dos país. Mas cabe-se destacar que estes atletas alojados são minoría, uma vez que o inicio precoce do proceso de formação, possibilita a formação de bons jogadores, já adaptados a filosofía de jogo do clube, sendo estes da própria cidade do clube. Ao contrario do que ocorre no Brasil, onde 80 a 90% dos atletas são de fora da cidade.

E as semelhanças com o processo no Brasil param por aí:

Na Espanha, se iniciam os trabalhos de formação nos clubes logo aos 5 anos, através das escolas do clube (Escolas pagas a valor simbólico comparado aos valores do Brasil), que obrigatoriamente trabalham dentro da metodología e do modelo de jogo de cada clube. Alguns clubes iniciam com o Futebol de 5 (que é diferente do Futsal, uma vez que é jogado em campo reduzido) e outros com o Futebol de 7. Esta diferença da-se em relação a norma utilizada pela liga regional onde se encontra o clube. É importante ressaltar que, já nesta idade, todos os atletas são “federados”. Este fato iniciou-se depois da década de 90, quando todas as crianças até 11 anos jogavam somente futsal, esporte ainda muito praticado no país. Já aos 9 anos, começam as competições oficiais, organizadas pelas ligas regionais do país. Nesta idade, os atletas que destacaram-se nas escolas já fazem parte das equipes oficiais dos clubes. Ressalta-se ainda que dos 5 aos 12 anos, todas as categorías da Espanha possuem 2 treinadores que trabalham pensam e discutem os treinamentos em conjunto, sendo que na prática, os dois se alternam em principal e auxiliar, treinador e preparador,… dependendo da exigência da equipe no momento.

A migração para o “futebol de 11” ocorre aos 13 anos de idade, quando todos os joagdores já adquiriram as capacidades motoras e os fundamentos técnicos uma vez que os mesmos foram trabalhados durante os anos anteriores. O trabalho passa a ser então predominantemente táticco, até para que os atletas se adaptem agora ao maior espaço de jogo devido a utilização total do campo. Isto explica o alto investimento dos clubes e da Federação nos profissionais da formação. O espanhol tem a partir daí a tática e o modelo de jogo como o principal fundamento do futebol.

A partir da categoría sub 12, duas vezes por ano, as seleções de cada categoria tem convocação, regional ou nacional. Caso o ano não possua campeonato nacional de seleções (disputado entre as seleções de cada regiao), as seleções inda assim, passam por um período de treinamentos, visando a preparação para o ano seguinte. No ano de 2013 por exemplo, ocorrerão na Espanha os campeonatos nacionais de seleções sub 12, Sub 16 e sub 18, e haverão convocações da seleção espanhola sub 17 e sub 19.

Desta forma, os atletas na Espanha treinam no ano, em seu clube, na seleção regional (cada região possui um Centro de Treinamentos denominado CAR – Cemtro de Alto Rendimiento), possibilitando aos atletas alto nível de treinamento físico, técnico e tático e psicológico muito bem trabalhado.

Pela divisão por categorias, Brasil e espanha trabalham da seguinte forma:

BRASIL

ESPANHA

NÃO POSSUEM EQUIPES NOS CLUBES

Sub 5 – 6  (Escolas do clube)

Sub 7  (Escolas do clube)

Sub 8  (Escolas do clube)

Sub 9

Sub 10

Sub 11

Sub12

Sub 13

Sub 13

Sub 14

Sub 14

Sub 15

Sub 15

Sub 17

Sub 16

Sub 20

Sub 17

Sub 18

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